Muitas vezes deixo de escrever, não por não ter o que dizer, mas por não encontrar – nem entre leituras e escritos – as palavras que preciso naquele momento exato. Esta tolice cria um círculo vicioso: por procurar a palavra, não escrevo. Por esperar o momento, não publico. No entanto, conforta-me a persistência deste ímpeto, desta necessidade vital de dizer não-sei-o-quê, nem sei a quem. Há algo certo? Que o texto se sustente na exata medida de seu próprio corpo.
(Rita Braga)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Formação e transformação


“[...] Toda família – sem estudar pedagogia – sabe disso: os filhos precisam tornar-se autônomos, e, para tanto, precisam da presença dos pais. Entretanto, os pais sabem que, se com o tempo, a autonomia não se realiza, o projeto pedagógico falhou. [...]”

“[...] A qualidade do Estado não está nele, mas na cidadania que o sustenta. Não se pode ter Estado melhor que a cidadania que está por trás dele.”
(Pedro Demo)




Há algum tempo tenho refletido sobre a importância das epígrafes e citações. Mas o exemplo que me trouxe à escrita desencadeia urgências. Aconteceu que um dia desses, muito ao acaso, ao ler um projeto da área de museologia, encontrei um trecho do livro Conhecer & aprender, de Pedro Demo. Era uma breve passagem sobre como a dialética encara os discursos contraditórios.  Fui procurar o livro, mas no caminho me interessei pelo título de outro: Ironias da educação – mudança e contos sobre mudança[1].  Em suas observações sobre a pedagogia e a contradição performativa (fazer discurso que se destrói a si mesmo), vi o quanto este livrinho, que jamais me foi apresentado na faculdade ou em qualquer outro curso, teria interferido de maneira fundamental no início de minha atuação como educadora.
O texto é, em síntese, “um tapa na cara” ou “um soco no estômago”. Uma leitura com gosto de café amargo, que acorda o leitor e o arremessa para muito longe qualquer discurso cor-de-rosa sobre a educação no Brasil (supondo que fosse possível algum discurso cor-de-rosa em nossa condição). Para muitos professores, certamente, o texto tem o efeito de uma metralhadora, derrubando todos, em todos os lados... Aliás, é difícil ficar em pé quando ele atira o primeiro o axioma-granada: “quem muito prega a moral, mais dela precisa”. Os estilhaços atingem a pedagogia, os professores, as faculdades, o Estado, a sociedade e, é claro, a educação.   
À medida que a leitura avança, a fumaça abaixa e o leitor percebe que o estrago não foi feito pela bomba... Me lembrei da música do Caetano, em que se vê algo fora da ordem nas “ruínas de uma escola em construção”.
De fato, neste livro publicado em 2000, o sociólogo discute um panorama ainda atual e o faz de maneira bem fundamentada. Confronta teorias, discursos e práticas. Registra mazelas notórias, não somente sobre as deficiências na formação de professores, mas também na atitude da sociedade e do Estado diante do quadro.
As três partes do livro (Conto-do-vigário, Sobre mudança e Resgate do professor) mostram como os discursos de transformação social, tão enfatizados por todos esses agentes, são contraditórios ou vazios quando se trata de “transformar” ou “concretizar” o que pregam. Pedro Demo parte do discurso abstrato da entidade “pedagogia”, mas, como não poderia deixar de ser, rapidamente chega ao cidadão e ao professor.

As fissuras da pedagogia e do professor

A crítica à pedagogia vem no sentido de que ela não se permite a inovação enunciada aos quatro ventos, alimentando o “pacto de mediocridade”, inclusive, por meio de cursos e diplomas facilitados. Demo aponta a necessidade urgente não de “reforma”, mas de “transformação”. Comenta que neste novo contexto histórico, mais do que nunca, o foco deve estar na aprendizagem e não na passagem de informação – mesmo porque os meios eletrônicos já são os responsáveis por isso. Cabe ao professor o papel de “facilitador maiêutico”. Para isso, é indispensável que ele tenha voz própria, projeto próprio, que saiba aprender para ensinar a aprender.[2]
Não é preciso ir longe para ver o quanto o sujeito-professor tem sido destituído de seu papel. O autor destaca que há um quadro tão depreciativo a ponto de muitos professores se mostrarem “carentes de elogio” e “resistentes à crítica e à autocrítica”.[3] Trata-se de uma situação bastante complexa, gerada e alimentada por fatores sócio-econômicos, como baixos salários e condições desumanas que impedem o profissional de se realizar e de se permitir o estudo cotidiano. Algo, aliás, que deveria ser inerente  trabalho educativo.
Sem dúvida, nas palavras de Demo, “o salário precisa indicar inequivocadamente a dignidade da sociedade em que [o professor] atua, por conta do compromisso com a cidadania e respectiva ética. Assim sendo, a contradição flagrante está em que não se pode trabalhar a cidadania de maneira adequada utilizando quem ainda não é cidadão pleno. É absurdo total alocar o professor entre os excluídos. [...]”[4] Por outro lado, o autor também denuncia atitudes inaceitáveis que compatibilizam a equação baixo salário = baixo compromisso com a aprendizagem dos alunos. [5]
Para Pedro Demo, e para outros pesquisadores como Viviane Mosé, não é possível avançar em Educação sem uma transformação radical que começa por abolir o obsoleto modelo de “dar aula”. O compromisso de difundir tais constatações vêm no sentido de alargar horizontes, rompendo com o ciclo de “imbecilização” que impede a cidadania.

Alguém se lembra do que é cidadania?
O livro Ironias da Educação é denso, apesar de suas poucas páginas. Discute contradições gritantes como a passividade dos professores quanto à própria formação, condena posturas alienadas e reprodutivas e, principalmente, convoca-nos à responsabilidade social diante deste quadro decadente.
Colocar a aprendizagem dos alunos como foco é, antes de tudo, priorizar a autonomia cidadã.  Encarar eterna incompletude do conhecimento como fato e não obstáculo. Posicionar-se a respeito dos problemas e estar disposto ao trabalho social exigido para alcançar soluções. É abrir espaço para a crítica e para a autocrítica, saindo da posição defensiva, pois “o lado mais importante da crítica está justamente em seu lado negativo, desconstrutivo”, como diz o autor.
“[...] Não se trata, assim, apenas de cidadania, mas de cidadania instrumentada pelas habilidades do conhecimento desconstrutivo. [...]”
Enfim, uma citação me chegou quase aleatoriamente, tomou-me pela mão e me fez caminhar um bocado. Foi o primeiro contato com este pensador que certamente me trará outras leituras, atitudes e reflexões. Registrar este encontro, mais do que compartilhar o conteúdo, é alimentar a saudável cadeia das citações...
A quem se interessar, indico o blog:  http://pedrodemo.blog.uol.com.br.






[1] DEMO, Pedro. Ironias da educação – mudança e contos sobre mudança. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
[2] P.91.
[3] P.37.
[4] P.79.
[5] P.34.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Ler, notar, anotar e escrever



“Você nunca termina um livro, você o abandona.” 
Oscar Wilde








Alguém disse que “escrevemos para preencher as lacunas dos livros que lemos”. Machado de Assis, em Dom Casmurro[1], não poupa advertências: “Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos [...].” Ele nos mostra a participação ativa inerente ao ato de ler.  De fato, são infinitos os pensamentos despertáveis por qualquer palavra.
Um dia desses, eu estava conversando com uma amiga socióloga, uma moça sempre muito atenta e reflexiva, aquele tipo de pessoa que sabe desdobrar qualquer detalhe em descoberta, em questionamento e em diálogo rico e instrutivo.
Acontece que apesar de ser uma pesquisadora voraz, minha amiga alimenta uma cautela que posso chamar de “aflitiva”, pois ela adia o momento de registrar seu olhar sobre o mundo e o faz sob o eterno argumento de que precisa ler mais, assegurar-se das linhas de análise sobre isso ou aquilo... Será? É preciso mesmo estar pronta para um livro completo? O pior é que a cada leitura ela também se aflige com novas dúvidas e levantamentos bibliográficos, em uma autocobrança que a mantém no ciclo de procrastinação.
Resolvi registrar este caso porque ele me intriga, me aflige e me comove. Não somente porque desejo ser sua leitora e registrar de maneira mais eficiente as nossas deliciosas conversas sobre língua e cultura, mas, principalmente, porque me reconheço num processo muito parecido e, ao olhar de fora, redimensiono valores e atitudes.
Daqui, como uma espécie de “leitora-órfã”, sei intimamente que o adiamento desse livro pode ser um prejuízo doloroso, um erro com certeza muito mais grave do que o risco da suposta inconsistência bibliográfica ou mesmo de uma futura mudança de olhar.
Aliás, que atire a primeira pedra aquele que tem a garantia de que nunca vai mudar! Até os mortos mudam. Quantos e quantos autores foram lidos de maneiras tão diversas, a ponto de seus supostos erros, lacunas e acertos serem vistos como vanguarda, estímulo e até mesmo previsão!
As palavras de Leandro Konder[2] que introduziram tantos alunos à Dialética como “Filosofia da mudança” de alguma maneira tomam parte em minha inquietação.  Talvez porque o impasse se dê justamente na raiz... É difícil reconhecer e administrar aquilo que Konder destaca como “uma as características essenciais da dialética”: o espírito crítico e autocrítico. Fico pensando se não seria o caso de tomar coragem e adotar o método do escritor E. L. DoctorowEle diz que “escrever um romance é como dirigir à noite. Você só consegue enxergar até onde os faróis iluminam, mas você pode completar a viagem dessa maneira.” O mais importante é aceitar o convite à jornada. Mesmo porque reparei que quando estou com pessoas como minha amiga, em nossa conversa passeiam discretos e ilustres autores que só conhecemos por meio de livros. Muitos deles escritos a duras penas, quem sabe se salvos do anonimato absoluto pela boa vontade de alguém que se arriscou a traduzir ou editar um texto – agentes que neste percurso assumiram cada um a seu tempo o papel de leitor. O que seria de nós se eles não tivessem arriscado...
Não escrevo somente para cutucar minha amiga e convencê-la a investir na escrita. Este também é o canal que eu encontrei para pensar por escrito – compartilhar um pouco do que venho ruminando há algum tempo sobre esse complexo ato que é “ler”.
Especialmente neste episódio, ao perceber lacunas abissais entre as ideias anotadas, a inevitável relação entre leitura e escrita chegou a mim de maneira muito mais concreta e ampla. Lembrei-me da observação do professor Ezequiel Theodoro da Silva na qual, citando Gusdorf, ressalta: “o homem deixou de ser somente o homem que fala e se tornou o ser que escreve e que lê (...)”. [3] E isso remete-me também à ênfase que autores  como Affonso Romano de Sant’anna[4] e Eni Orlandi[5] dão à leitura como trabalho e tecnologia – ação pela qual o homem interfere na natureza e por  isso mesmo continuamente se transforma. Lembremos de que a própria tecnologia da escrita teve seus primórdios na função contábil e deu um salto quando alguém, além de registrar quantidades, resolveu narrar e comentar histórias.
Em nosso cotidiano, quando eu e minha amiga “tagarelamos” sobre projetos em nosso trabalho, o fazemos muitas vezes a partir de nossos rabiscos e anotações. Muitas vezes são palavras soltas que aos outros colegas podem parecer tópicos completamente dispersos. Mas nós acumulamos ideias, discursos e olhares que são resultado de nossos caminhos diversos e dinâmicos. Trilhas abertas, que possivelmente nos conduzirão a outros caminhos amanhã.
Foi ao ouvir comentários como “mas eu estou anotando, para um dia, quem sabe...” e ao olhar meus inúmeros cadernos que percebi: ler é notar, compreender...  mas é preciso emancipar aquelas preciosas palavras soltas.
É uma atitude relevante permitir-se ir de uma breve anotação ao exercício da reflexão escrita. Um direito tantas vezes reivindicado, um dever tantas vezes negligenciado... O que se ganha omitindo? Se alguém disser que ganha sossego, segurança, tempo... é porque de fato não tem nada a dizer, pois somente para esse tipo de pessoa o tempo corrido em silêncio aparenta ser um amigo. Não se percebe qualquer conflito. As coisas passam e pronto.
Mas aos outros, os termos notar, anotar e escrever estão hierarquizados. E enquanto não se chega pelo menos ao primeiro esboço, o pensamento se inquieta com todo tipo de divagação.  Mesmo depois de algo escrito, claro, as crises continuam, mas os embates se dão em outro patamar. É como está no Eclesiastes (12, 12): “fazer livros é um trabalho sem fim.
No entanto, por mais que a pesquisa seja repleta de referências cuidadosamente registradas em “notas”, é no escrever – permitir-se a própria voz – que o conhecimento se produz. É sempre o leitor quem liga os pontos e por seu próprio traço cria algo novo. Ainda que este novo não seja “100% novo”, a carga de subjetividade inerente ao fenômeno da leitura garante o brilho no olhar de quem descobre algo e constrói para si mesmo um caminho.
Se me permitem o paralelismo com outra metáfora bíblica, se não fosse uma voz corajosa enunciar “faça-se a luz!”até o universo permaneceria o mesmo: misterioso, inapreensível e imenso, porém, na mais profunda escuridão.






[1] ASSIS, J.M. Machado de. Dom Casmurro. Cotia: Ateliê, 2008, p. 213.
[2] KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: Brasiliense, 1985.
[3] SILVA, Ezequiel Theodoro da. O ato de ler: fundamentos psicológicos para uma nova Pedagogia da Leitura. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2011: p. 73.
[4] SANT’ANNA, Affonso Romano. Ler o mundo. São Paulo: Global, 2011.
[5] ORLANDI, Eni Pulccineli. Discurso & Leitura. São Paulo: Cortez, Unicamp, 2003.







quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Do fundo da superfície



“[...] quando falamos de leitura não estamos falando de leitura, e, sim, de ‘leitura’. O trabalho por uma sociedade leitora consiste antes de tudo em desautomatizar a noção trivial de leitura, porque o que se comprova na sociedade do excesso de letras & sinais é que os que leem não leem.” Affonso Romano de Sant'Anna [1]






Aos que têm pressa, pode-se dizer que o livro Ler o mundo de Affonso Romano de Sant’Anna é uma compilação de textos apresentados em diferentes ocasiões. Alguns foram publicados em jornais e livros, outros são palestras ministradas em suas viagens de reconhecimento dos leitores e da leitura por um vasto Brasil – um cenário muito maior do que a mídia costuma mostrar.
Os relatos sobre os agentes de leitura e sobre as iniciativas locais dão fôlego aos que sensatamente persistem na indissociabilidade entre educação e cultura. Porém, não há como não se indignar com suas denúncias, nem como ignorar o peso de nossas escolhas políticas em cada um dos descalabros citados por ele. Pior é admitir que dali vemos apenas a ponta do iceberg.
A noção de leitura exposta no livro ultrapassa tecnicismos e cinismos de um país que canta índices de alfabetização, subsidiando o analfabetismo funcional e até tecnológico, pois, como bem destaca o autor, “o analfabeto é também aquele que a sociedade letrada refugou”[2].
Ao recolocar a leitura em sua autêntica condição de “tecnologia”, percebe-se no livro e nas bibliotecas o campo fundamental para que o país de fato cresça democraticamente e em todas as direções.
Como ex-diretor da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e responsável pelo Proler, Sant’Anna reúne memórias documentadas sobre o nascimento das políticas de incentivo à leitura no Brasil. Ele mostra, inclusive, em suas colunas em jornais (Estado de Minas/Correio Brasiliense) a necessidade de se pensar em ações continuadas para a formação de leitores em um sistema amplo, cujo alicerce é o tripé biblioteca-livro-leitura. Já se sabe que o ato de alfabetizar e distribuir livros não forma leitores. E a experiência consolidada no Proler, mesmo com todas as suas dificuldades, mostrou que “incrementar programas de leitura é ajudar a ler o mundo, a interpretar, a tornar as coisas menos enigmáticas.” [3]
Entre as diversas faces da leitura abordadas em Ler o mundo, talvez três tópicos sejam, para mim, mais marcantes:
1)      É preciso que o discurso de incentivo à leitura saia da visão reducionista de leitura/prazer e resgate o valor real e amplo de leitura como tecnologia/trabalho. “Insistir na leitura como prazer é prometer um parque de diversões onde o leitor encontrará às vezes uma usina de trabalho.”[4]
2)      Muitas vezes os maiores desafios são enfrentar e denunciar o “discurso duplo” daqueles que deveriam ser os principais aliados. O episódio lamentável que determinou a injusta demissão de Sant’Anna da presidência da FBN, e os embates para a consolidação do Sistema de Bibliotecas são exemplos do quanto a leitura hoje é assunto de resistência.
3)      “Ser ‘moderno, às vezes, é um modo de ser apenas raso e superficial.”[5] Estas palavras dão muito o que pensar. No contato com livros como este e no cotidiano de trabalho educativo descubro a cada dia graves lacunas em minha formação. Vejo colegas em situação similar. Com eles, tento conversar sobre cursos e livros, e ao mesmo tempo sinto que as fendas são mais profundas do que parecem. A falta de tempo para a introspecção é causa ou conseqüência das mudanças tecnológicas e educacionais? A tecnologia foi adaptada ao excesso de informação, ou fomos nós que, cada vez mais incapacitados a este tempo interior, nos escondemos e nos acomodamos a ela?
Mais uma vez me deparo com o fato de que todo bom livro dá ao leitor um espelho. Sei que estou sob um batente e não atravesso a porta. Vivo a olhar pela janela, em divagações que se dissolvem muitas vezes ali mesmo, naquele espaço limítrofe entre o dentro e o fora. Em tantas outras áreas engolimos as tragédias cotidianas, que na educação quase soa absurdo esperar outro resultado. Aqui também, enquanto se tenta consertar o telhado já em dia de chuva, a enxurrada corrói alicerces, abre crateras. Cada um que se vire com seus próprios recursos, sem a ilusão de que as leis terão o efeito necessário. O que se nota é que no Brasil a formação de leitores tem sido tratada como as enchentes sazonais. Não se admira que, muitas vezes, desistir ou mudar de rumo seja o tipo de decisão nascida não da vontade partir, mas da impossibilidade ficar.
Por fim, se apesar da angústia escrevo, é porque concordo com o autor quando diz que “ler e escrever são atos geminados. Quem lê está lendo a escrita do outro, que fala por ele, mas escrever é fazer falar o leitor-autor que há dentro de cada um.” [6]  
Aos que desanimam e enxergam mais obstáculos que soluções, cabe registrar nesta “também superficial” indicação de leitura um dos muitos episódios narrados neste livro. Trata-se da biblioteca hospitalar montada pelo médico dr. Ronaldo Tournel.
“Um dia ao dar alta a um paciente, este lhe pediu para adiar sua saída, porque precisava saber o fim de uma história que estava lendo ali no hospital.
O médico achou interessante o pedido, mas seu assistente chamou sua atenção comentando que aquilo não era bem assim, pois o referido doente era analfabeto. O dr. Ronaldo, então, vai ao paciente e pergunta-lhe se é analfabeto. Meio encabulado, mas firme, o doente então lhe diz uma frase capaz de matar de inveja Guimarães Rosa:
‘É, doutor, não sei ler mesmo não. Mas o paciente do leito 12 está lendo pra mim, e eu leio a leitura dele.’”[7]

[1] SANT’ANNA, Affonso Romano de. Ler o mundo. São Paulo: Global, 2011, p. 93.
[2] p. 12.  
[3] p. 213.
[4] p. 14.
[5] p. 186.
[6] p. 219.
[7] p. 219.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Passarinho que se debruça...


“A escola resistiu a socializar a escrita, sendo que a leitura foi socializada. Ler significa ver o mundo pelos olhos do outro. Escrever significa expressar a própria identidade. Querer que todo mundo escreva e se comunique é que é ser revolucionário.”
(Elvira Souza Lima, antropóloga e neurocientista, em depoimento à revista Língua Portuguesa, de setembro, 2011).


Quando escolhi a metáfora roseana para abertura de um blog sobre livros, literatura e leitura, tal aforismo me trazia um sentimento promissor.  Ainda que no contexto original a imagem se refira a um personagem de intenções duvidosas, agora, deslocada para o novo lugar, eu a lia como um estímulo ao registrar as coisas que tantas vezes eu me inclinava a dizer, mas não dizia – por medo ou não sei bem o quê.
Um dia desses, quando li a notícia de que vários Estados norte-americanos aboliram o ensino de letra cursiva nas escolas, foi essa mesma sentença que me veio em mente. Puxa! Custei a entender o que tanto me incomodou na decisão... Não foi nem a visão simplista de um ou outro professor que cogitou a ideia para “facilitar o trabalho”. Percebi o elo entre ler e escrever em meu cotidiano. E somente hoje pude observá-lo com mais cuidado. Ele se manifesta no que não li e, na minha atual condição, em tudo o que tenho pensado, mas que apesar da vontade, não cheguei a escrever.
                                                          
O que li e o que não li
Tenho certeza de que alguém já disse isso: “a época da faculdade é o período em que mais se lê e menos se lê", pois tudo é picotado. Sempre fica a promessa de um dia ver o que o autor dizia em outros capítulos... e, ao que me parece, a medida que se avança nos estudos, essa angústia  também se amplia, se desdobra em pensamentos, listas, apontamentos e divagações.
Este ano decidi dar mais atenção este tipo de circunstância em que o ler o não ler se colocam como paralelos de modo mais evidente, e por este caminho me deparei com uma profunda necessidade de escrever. Iniciei um esboço de pesquisa sobre os discursos contraditórios que perpassam situação da leitura no Brasil e, no meu primeiro final de semana de férias, resolvi registrar algumas das minhas próprias contradições.
A primeira tem a ver com o volume de leituras orientadas pelo curso de Sócio-psicologia, que me jogam na certeza socrática do “só sei que nada sei”. Li tanto que agora tenho a (in)segurança saudável para afirmar que há muito ainda a ler, a refletir e a fazer...

Leitura - imposição ou escolha
Justamente ao atrelar o curso à pesquisa, percebi um fator não alcançado pela publicação nos Retratos da Leitura no Brasil: até mesmo o texto indicado como obrigatório em uma instituição de ensino é uma escolha. Todos os dias vejo pessoas que se contorcem em conduções lotadas para chegar à aula com o texto lido, enquanto outros deixam de lado, ou apelam para o “resumão”.  Parei uns alguns instantes pensando nisso e parte da minha angústia por tudo que não tive tempo de ler, já começou a se dissipar,  pois na maior parte das vezes tenho a sensação quase infantil de “ter feito a lição de casa”.
Aos poucos fui recordando também quantas leituras (não obrigatórias) enriqueceram minhas descobertas em 2011 e agora já me sinto mais confortável em refazer as velhas promessas de retomar textos no próximo ano.
Aliás, a quem duvida que um dia isso se cumpra, com satisfação devo dizer: é possível cumprir – claro que renunciando ao turbilhão das novidades... É preciso encaixar-se no tempo presente, com uma paciência que já não se vê por aí.
Neste ano que se fecha, finalmente, li alguns textos há muito adiados... Chego a achar que fiz as pazes com Freud, me aproximei de Bourdieu... Mas acho que minhas estrelinhas de boa aluna virão por ter relido Guimarães Rosa, Mia Couto e Alberto Manguel. Estou descobrindo Jorge Amado, revisitando Drummond, Clarice e Bandeira. Revejo meu mundo em letra impressa com o apoio essencial de Ezequiel Theodoro da Silva, fundamento de minhas reflexões.
Até aqueles livros adiados desde o colegial (e que não me perguntem os anos envolvidos nisso), finalmente começam a chegar com mais comprometimento, com mais paciência, e, se não “prazer”, pelo menos “aceitação”. Sim. Eu como qualquer outro leitor, tenho meus momentos de preguiça, cansaço, indisposição... E vi, no decorrer do ano, uma lista infinita de livros desejados, queridos, admirados, que nem por isso tive tempo ou condições de ler. Ficarão em paz numa pretensiosa lista de leituras. Não adianta nada exigir mais do que me é possível. Reconheço ser eu mesma um desses sujeitos desconcentrados do século XXI. Estou eu também imersa em demandas externas que me obrigam a adiar o que quero ler, pensar, fazer, dizer... e, principalmente, escrever.

Do tempo de ler ao tempo de refletir e escrever
Ao ouvir as inquietações da educadora Simone Scifone na Semana de Valorização do Patrimônio Histórico e Cultural da Cidade de São Paulo, percebi que, de fato, às vezes o deixar  de ler e o deixar de fazer são a única maneira de abrir espaço para a produção de conhecimento e a sistematização do que se pratica. Escrever é tão importante quanto ler. Em tempos de internet, mais do que nunca, cada um deve ter garantido o direito de manifestar sua presença no mundo, mas sem pressa, sem pressão, sem opressão.
Vejo que neste ano, entre tudo o que li e o que não li, estavam os meus pensamentos mais ricos: aqueles repletos de dúvidas. São eles que me arremessam a novas leituras, novas práticas e novos olhares. São eles que me fazem pensar que apesar de toda a correria, todas as falhas, o ano foi instrutivo, novo e bom.
Mas o que dizer da experiência de quebrar o braço direito, bem no dia em que comecei a escrever este texto? Algumas amigas me disseram que este “repouso forçado” era uma parada necessária que eu vinha adiando, um momento de descanso renegado até que a vida num breve escorregão deu um jeito de me cobrar.
Talvez elas tenham razão. Mas a queda também me fez ver minha própria fragilidade (o braço protegendo a cabeça...). E aqui estou eu no meu “repouso”: lendo com uma ampliada necessidade de escrever.

As letras e os dias...
Mais do que nunca pensei sobre o impacto da abolição da letra cursiva entre os norte-americanos. Porém, dessa vez, olhei para o fato sem meu vício intelectualóide de tentar entender ou explicar. Apenas me vi de volta àquela dificuldade esquecida: nestes 40 dias de braço engessado estou reaprendendo minha caligrafia, desta vez com a mão esquerda. É como se outra pessoa aparecesse em mim neste novo esforço de escrever como pensar. Pra quem não sabe, o manuscrito ainda tem um peso grande em meu dia a dia. Gosto de anotar tudo, revirar cadernos e papéis, rabiscar antes de ligar o computador. É somente um hábito, um capricho, ou outro vício impregnado ao meu raciocínio – um vício do qual não desejo me libertar. Algo que me faz falta neste exato momento em que me atrapalho toda ao pinçar com a esquerda as letrinhas soltas no teclado.
Como dizia, desde setembro a questão da letra cursiva também vinha fazendo parte das minhas leituras, mas o ponto exato de minha angústia ainda não estava claro. Veio agora em uma experiência de perda temporária desta habilidade. Há elementos afetivos, psicomotores e até criativos envolvidos em meu hábito. Mesmo que sejam contextos totalmente diversos, tenho a impressão de que este é um daqueles fatos que merecem uma discussão mais extensa do que a sociedade já adaptada aos argumentos de 140 caracteres está disposta a realizar.
Decerto, eu e muitos da minha geração – que por algum descuido não acompanharam o ritmo da dança tecnológica das cadeiras – tendemos a estranhar que uma habilidade (supostamente) tão arraigada à cultura ocidental possa ser extraída assim, sem dor. 
Depois de ter lido o texto “Mãos atadas”, de Juliana Holanda, na revista Língua Portuguesa, de setembro/2011, percebi que separar a socialização da leitura e da socialização escrita implica mais que um retrocesso, uma espécie de atropelamento de direitos. Por mais que eu reconheça as considerações colocadas por pedagogos, sei que há mais alguma coisa não contemplada. Tanto aqueles que destacam esta transformação como uma etapa da evolução, quanto àqueles que salientam o desenvolvimento cognitivo vinculado ao processo linear da escrita sabem que há mais valores em jogo do que o grande público se dispõe a perceber. 
Não tenho condições de entrar no aspecto pedagógico da discussão, mas confesso que já passei daquela primeira impressão de que “chegamos ao final dos tempos”. A decisão tomada no contexto americano não é um consenso. Porém, lá os processos de aprendizagem da língua oficial seguem caminhos diferentes das listas classificatórias pseudo-ensinadas no Brasil. Há que se pensar em um conjunto de fatores, inclusive, econômicos, antes que se saía por aí propondo uma decisão similar em nosso país. Um professor iniciante nos EUA ganha em média 35 mil dólares por ano– o que equivaleria a pouco mais de 5600 reais por mês. Portanto, o grau de seu envolvimento profissional, do ponto de vista da subsistência e do tempo, já é um diferencial a ser tomado em consideração.
Enfim, no Brasil, antes de um passo como este, ainda há muito que ler, construir e oferecer aos cidadãos. Não estamos prontos. Ainda nos faltam, por exemplo, condições para formar professores como leitores plenos, com o domínio desta tecnologia milenar que é a escrita. Poucos se permitem usá-la de fato, na tentativa de alçar voo, ver o mundo de maneira mais ampla, a fim de vasculhar novos caminhos.




quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sopros e entrelinhas

“Nada se parece mais com uma casa em ruínas do que uma casa em construção.”
Jean Cocteau

 


São fios, redes, nós, laços e embaraços. O que é arte? O que é fazer arte? Até que ponto a arte se instaura como espaço de mistificação, sacralidade, hermetismo? Até que ponto uma obra de arte pode despertar questionamentos ou atitudes no público? Até que ponto cabe ao autor delinear os limites desta relação?
Ao observar a instalação Sopros, realizada por Nair Kremer, na Praça Buenos Aires, é possível que muitos estranhem um intermitente emaranhado disforme. De fato, o resultado ao final de cada tarde destoa das linhas poéticas que compõem a exposição Oxigênio 3. No entanto, é justamente nesta diferença que se pode mais uma vez encontrar a mescla da artista e da arte-educadora. A liberdade, a interação e o estímulo à autonomia são fundamentos de sua proposta de educação pela arte (ou arte como educação). Ideais concretizados, tanto em projetos sócio-culturais na periferia paulistana, quanto nas atitudes cotidianas de mãe, amiga, e avó. Onde Nair está, há sempre algum burburinho, algum sinal de movimento. Estas referências, quando colocadas no contexto de uma intervenção de arte contemporânea no espaço público, tornam-se um diferencial, uma identidade e uma espécie de estopim. Sim. Os trabalhos de Nair costumam ter um caráter deflagrador. Seja no campo das ações, seja no campo das reflexões.
Por exemplo, algo que esta nova instalação trouxe à tona, diz respeito ao modo como geralmente se lê a noção de “liberdade”. Este é um daqueles trabalhos em que o artista não tem “controle absoluto” sobre a obra. E, nesse caso, acolher o “acaso” e até o “caos” faz parte do processo. Mas note-se que este gesto de acolhimento e generosidade diante das atitudes do público coautor é apenas uma das etapas. O trabalho não se limita a acolher o que vier. Ele está inscrito em um contexto específico que merece atenção. É importante lembrar que no ano anterior, no mesmo local, a instalação Um poço fitando o céu desencadeou uma série de processos criativos, não somente na artista, como nos frequentadores da praça, tecendo uma rede, também repleta de intervenções e performances não planejadas.
Note-se que os armários e gavetas que há alguns anos são sinônimos de abertura, interação e ressignificação, dessa vez são eles mesmos deslocados para novos sentidos. O que antes era um movimento que partia do mergulho ao interior representado nas gavetas (e no “poço” de Fernando Pessoa), agora se propaga das gavetas em direção ao espaço externo. É dali que partem os fios, as redes, as matérias e as inspirações... Da mesma forma, se nas instalações anteriores a ação do público se dava no interior das gavetas, com objetos recombinados a cada manuseio, desta vez, a liberdade se expressa, inclusive, esvaziando-as. Expondo vínculos, conflitos e rupturas, numa rede ou emaranhado que se estende em várias direções. O que mais isso tudo nos diz?
Aos que reconhecem na arte um discurso sobre o fazer, cabe pontuar o bom hábito que a artista tem de documentar os seus processos. Sim, pois investigar passos e detalhes deste “evento instalação” pode ser uma experiência reveladora de pontos nem sempre notados na visita ao local.  É somente na documentação, por exemplo, que se vê como as primeiras linhas e redes, amarradas pela artista às árvores e galhos, traziam uma proposta estética apolínea, comedida – por sinal, coerente com a poética visual estabelecida no espaço todo. É na relação com o público que a visualidade se transfigura. As imagens trazem o envolvimento afetivo e “provocativo” dos participantes. Cabe perguntar, então, até que ponto esta instalação, ao destoar dos outros trabalhos, não trouxe à tona um uso do parque como um ambiente sacralizado – um “cubo verde”, embutindo o “cubo branco”?

Por certo, outras linhas interpretativas podem ter surgido. É possível que, para alguns, haja no resultado da instalação Sopros uma visualidade que remete a outras cenas urbanas: os emaranhados dos fios elétricos, os desarranjos amontoados de pessoas que vivem, moram e morrem “atrapalhando” as ruas da cidade... O caos, nem sempre lembra coisas “bonitas” e essa é uma leitura real que não deve ser descartada. Mais que isso, este tipo de referência nos faz lembrar que a legibilidade de uma obra não depende só da matéria em si. Ela é uma relação complexa na qual, entre os fatores de maior relevância, estão os repertórios compartilhados entre o autor e o público. E o que pensar quando a autoria se dilui em uma rede? E se o público se insere na coautoria? Como rastrear tais referências e intenções? Que fio de Ariadne pode servir ao observador?
São muitas as questões despertadas – e às vezes respondidas – pela documentação do processo. As fotografias feitas pela artista são registro de seu olhar acolhedor sobre cada gesto. Não é de admirar que amanhã ou depois estes focos se desdobrem em outras obras, pois, a rede construída a cada dia inspira e expira. O conjunto se dilata e se contrai num movimento vivo entre as árvores. E não há dúvida de que desperta inspirações.
Que importa a efemeridade dos laços e nós dados pelos passantes? Nem sempre o tempo que passa diminui a importância do instante, da atitude e da colaboração de cada um. Muitos se reencontravam nas imagens do ano passado afixadas nos arquivos. Em tempos de redes virtuais que dissimulam constância e permanência dos laços, quem é capaz de medir a resistência dos “nós” colocados em cada participação?

A arte de Nair e sua maneira de educar têm, de fato, objetivos em comum: desencadear processos individuais, trazer aos olhos as instâncias da autonomia. Um dos caminhos é propiciar a experiência. Outro, é despertar ruminações, perguntas e outras criações.
* Fotos: André Rosso, Germania e Rogério Nakagoa.

domingo, 18 de setembro de 2011

Mundos e referências

Leis da Integridade Criativa 
1ª lei: Escrever apenas o que me dá prazer escrever.
2ª lei: Escrever textos com alta densidade poética, exceto quando isso contrariar a primeira lei.
3ª lei: Agradar o maior número possível de leitores, desde que tal desejo não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei. 
(Luiz Bras)


Segundo Pierre Bourdieu[1], “a cultura letrada, erudita, define-se pela referência; ela consiste no permanente jogo de referências que dizem respeito mutuamente umas às outras; ela não é nada mais do que esse universo de referências que são indissoluvelmente diferenças e reverências, distanciamentos e atenções.” Então, vale abrir espaço para a dúvida: o que me leva a escrever é esta eventual dinâmica em que estou imersa, ou, antes, fui seduzida pelas três bem humoradas leis de Luiz Bras[2]. Na verdade muitos elementos me motivaram a registrar o evento que foi, para mim, a leitura de seu livro.
Este autor, que assina também a coluna Ruído Branco, no jornal Rascunho, traz neste pequeno volume muitas vozes e olhares sobre a literatura contemporânea. Um discurso crítico renovado, elegante e inteligente. Algo que pelo menos me garantiu nesta pseudo-resenha o cumprimento da primeira de suas leis.

Mudar é mudar em todas as direções
Literatura, ficção, ética, ciência... São tantos os assuntos entrelaçados que até fica difícil eleger um ou dois tópicos para apresentar o livro. Talvez pelo rumo de minha própria prosa neste blog, os mais marcantes sejam os textos “Fim do papel, fim da poesia” e “o autor e o seu editor”. Porém, não somente nestes, reflexões sobre as novas mídias, mercado editorial e o perpétuo medo da mudança se desenrolam com imagens e citações extraordinárias:
“[...] Agora podemos ver a poesia na UTI, inconsciente, sobrevivendo artificialmente graças aos aparelhos hospitalares, e apenas graças a eles. O que seriam os aparelhos? Os prêmios oficiais, as edições patrocinadas pelas secretarias de cultura, as compras do governo para as escolas e bibliotecas públicas, e outras ações semelhantes. Todas artificiais, porque não pertencem ao horizonte de escolhas do grande público. [...]”
“[...] Naquela altura, o meu editor já estava preso havia quase três anos. Tinha sido apanhado em flagrante a recusar o livro de um jovem escritor, dizendo-lhe sabe como é, as pessoas já leem pouco, quanto mais um autor novo de quem nunca ouviram falar. [...] No princípio foi muito difícil. Os editores e os pedófilos são os mais maltratados nas prisões. Embora ele nunca me tenha dito, suponho que o tenham violado.”[3]
“[...] Quinhentos e tantos anos de imprensa caçaram, capturaram e aprisionaram o conhecimento do mundo em pequenas jaulas de papel e tinta.
As grandes livrarias, os grandes sebos, as grandes bibliotecas, são um tipo estranho e maravilhoso de zoológico.”
Sim. Gostei do livro por seu conteúdo, sua qualidade estética e até por seu formato de bolso, perfeito para espantar (ou acomodar) fantasmas existencialistas que também me rondam em filas de banco. Mas preciso confessar que senti falta da boa e velha listinha de referências bibliográficas ao final. Sei lá por quê... Vício? Condicionamento, talvez. Eram tantas ideias, obras e comentários que me deu um trabalhão ficar procurando tudo página a página, cada vez que me lembrava de um trecho. É um sintoma de que eu também tenho minhas raízes fincadas na Tradição. Será mesmo que todos a temos, como diz Bourdieu, como reverência ou como oposição? Bourdieu também fala que “o anacronismo está inscrito na atitude tradicional com respeito à cultura: o letrado tradicional vive sua cultura como viva e se percebe como contemporâneo de todos os seus predecessores.” Lembrei-me deste discurso ao constatar a “erudição descolada” de Luiz Bras. É apenas uma nota, um assunto engasgado, por enquanto, mas sobre o qual ainda pretendo escrever.

Cada cabeça é um mundo... e cada mundo, só uma cabeça?
O certo é que este livro me chegou como uma janela aberta a ventilar ideias e referenciais.  Foi bom ver um discurso coerente e bem estruturado, expondo os preconceitos em relação a alguns tipos de literatura. Foi enriquecedor me reconhecer cometendo vários erros... No livro há, por exemplo, uma argumentação consistente sobre os diferentes critérios de qualidade que norteiam a ficção científica, relegados pela crítica de um modo geral. Mais do que isso: há várias indicações de como o diálogo poderia ser mais produtivo, não fossem as fagulhas trocadas entre escritores e leitores de diferentes campos.  
De fato, ao ler Luiz Bras, vejo uma literatura que resgata (ou revigora) a leitura e a produção de livros como uma atitude política. “Quando você, eu, todos os leitores e todos os críticos dizemos ‘este livro é excelente’, na verdade estamos dizendo ‘este livro legitima o tipo de mundo no qual eu quero viver’. Então,  falar bem do livro em questão, promovê-lo, fazer com que seja lido por muita gente e passe a integrar o cânone literário, tudo isso se torna uma missão política. [...]”
Enfim, esta é mais uma leitura que por necessidade e por prazer vim aqui compartilhar.



[1] BOURDIEU, Pierre. Leitura, leitores, letrados, literatura. In: Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990, p.144.
[2] BRAS, Luiz. Muitas peles. São Paulo: Terracota, 2011.
[3] Trecho do romance Uma casa na escuridão, do escritor português José Luís Peixoto, citado por Bras.

sábado, 23 de julho de 2011

Sociologia da Educação

“Uma das contradições da sociedade capitalista está na existência simultânea a  concentração do saber e das técnicas que permitiriam democratizá-lo, mas que não são usadas com essa finalidade.”  
(Sonia Kruppa)

“Um galo sozinho não tece uma manhã:
Ele precisará sempre de outros galos. (...)” 
 (João Cabral de Melo Neto)




Para tecer o amanhã 

Em meio a tantas reflexões sobre a leitura e suas implicações sociais, sobretudo, no que se refere à cidadania, reconheço um aspecto que merece uma atenção especial: o professor como leitor – seja em sua atividade diária, seja em sua formação básica, ou na necessária e constante atualização de seus conhecimentos.
O livro Sociologia da Educação oferece uma introdução bastante responsável acerca da complexidade das relações ligadas à escola.  Como volume da série “Formação do professor”, editado pela Cortez em 1994, contém em sua estrutura capítulos temáticos que perpassam a relação entre política, economia, psicologia e, é claro, educação. Cada capítulo apresenta textos de base sobre a história e os desdobramentos deste ramo da sociologia e propostas de atividades, com uma reflexão a ser feita pelo professor em sua unidade escolar. Traz também a indicação comentada de leituras complementares ao final de cada capítulo.
Trata-se de um “curso”, breve, mas bem estruturado, ao qual – pelo que se percebe no cotidiano – nem todos os professores tiveram “acesso”. O que é “ter acesso”, quando se trata de um livro disponível em sebos e bibliotecas – é mais um ponto importante, a ser discutido com mais vagar em outra oportunidade.  Neste momento, proponho-me apenas a registrar algumas das ideias despertadas por esta leitura e seus elos com minhas impressões sobre o professorado de forma geral.

Ser professor e ser leitor
Ninguém discorda de que o conceito de leitura[1] – quando entendido como habilidade plenamente desenvolvida – ultrapassa os limites da decodificação escrita, consolidando-se como domínio de uma complexa rede relacional entre fatores textuais e extratextuais, em diferentes camadas de interpretação. Nos dizeres de Eni Orlandi[2], vale lembrar, “ler é saber que o sentido pode ser sempre outro”, e partindo desta consciência crítica inerente ao conceito, muitos outros campos sociais são acionados a cada exercício pleno de um leitor. A leitura se revela, portanto, como uma atividade criativa, geradora de novas reflexões, transformadora de comportamentos e ampliadora da visão de mundo.
Porém, os resultados expostos no livro Retratos da Leitura no Brasil[3] dialogam de maneira muito intensa com a matéria “A Educação vista pelo professor”, publicada na Revista Nova Escola, edição 207. Ao se perceber, por exemplo, que “muitos professores reconhecem que não se sentem suficientemente preparados para sua atuação profissional”, e ao mesmo tempo, “afirmam estar satisfeitos com a formação recebida na faculdade”, percebe-se algum “ruído” naquele conceito de leitura tomado aqui como pressuposto fundamental.  Percebe-se, por exemplo, que o desafio vai muito além de “ajudar os professores a se aperfeiçoarem com mediadores de leitura”, como bem afirma Maria Antonieta Cunha[4].
Há a necessidade dar “a todo professor” as condições necessárias para que ele também se desenvolva como leitor, pois se sabe que com a disseminação de cursos de licenciatura (de duração rápida, sem pesquisa e com conteúdo de baixíssima qualidade), infelizmente, o exercício das habilidades inerentes à leitura plena não tem sido sequer considerado como requisito para profissionalização.
Muita gente vai achar no mínimo “estranho” ouvir de um professor que ele “não gosta de ler” e que quando tem oportunidade disso, prefere “descansar”. Cada vez que nos deparamos com a precarização da profissão, até é possível reconhecer sua necessidade de “descanso”. Mas ao constatar que existem professores que não são capazes de compreender um texto simples, e que não têm a leitura como hábito para além do livro didático na sala de aula, há certamente motivos de sobra para a indignação.

Raízes ou frutos  quem pode cultivar ou eliminar o problema?
Outro paradoxo cotidiano, notado em uma série de eventos e relatos nos últimos dois anos, é que, muitas vezes, os discursos do senso comum enaltecem “a valorização da leitura e da escrita” como pressuposto, e ao mesmo tempo aceitam “o evidente descaso com a Educação no Brasil”, como fato instransponível ou mera fatalidade.
Mesmo sabendo que esse tipo de contradição entre as condições ideais e as condições concretas da sociedade se repete em muitas outras esferas – como saúde, segurança, moradia – cabe frisar o quanto este tipo de paradoxo agrava o quadro da educação. O discurso em si se torna um obstáculo na transmissão de conhecimento. Um empecilho que pode ser reconhecido de maneira mais ou menos planejada, dependendo dos fatores políticos, econômicos, psicológicos e sociais. A urgência não é por condenar um ou outro bode expiatório (como muitos têm feito, ao por a culpa no Programa de Progressão Continuada). Mesmo porque, se observarmos as condições sociais geradoras do programa (em seu projeto original), veremos que sua aplicação encontra pertinência na realidade paulista, porém, há muitos outros fatores, inclusive, econômicos e históricos, que são os verdadeiros desencadeadores do descaso social.
Apenas para apontar uma face dessa construção política do sistema, pode-se citar o teor dos textos que determinam o dever do Estado de garantir a Educação como um direito fundamental. No livro Sociologia da Educação[5], Sonia Kruppa comenta que a Constituição de 1937 já continha as sutis palavras:
“À infância e à juventude a que faltar recursos necessários à educação em instituições particulares, é dever da Nação, dos Estados e Municípios assegurar (...) a possibilidade de receber uma educação adequada às suas faculdades, aptidões e tendências vocacionais[6]. O ensino pré-vocacional profissional,  destinado às classes menos favorecidas é, em matéria de educação, o primeiro  dever do Estado”
Conforme observa a autora: “a Constituição de 1937 separava a formação intelectual para as elites e o ensino vocacional, profissionalizante, para os desfavorecidos”. A distinção social de acesso à formação remete, nitidamente, à sociologia proposta por Durkheim[7], que separa quem sabe e quem faz, e continua vigente em nosso contexto neoliberal e globalizado. Porém, agora com novos elementos que exigem o reconhecimento do conceito de leitura como postura crítica na interpretação dos discursos – que por sua vez, jamais se limitaram aos livros.
Por esta perspectiva, analisar a complexidade do leitor em geral é uma tarefa árdua e extensa, sobretudo, em pleno século XXI, na chamada “Era do Conhecimento” – com mudanças cada vez mais aceleradas nos meios de comunicação e novas implicações que surgem a cada dia.
Por outro lado, muitos têm se perguntado até que ponto a escola, enquanto instituição mais diretamente responsável pela manutenção do status quo ou pela transformação social, consegue acompanhar tais mudanças – responder esta pergunta é outra tarefa de Hércules a ser enfrentada.
Segundo Kruppa, a chave está na “relação que a escola mantém com a realidade do aluno e com a comunidade na qual está inserida”. E para que se estabeleça esta relação de maneira autêntica e efetiva, é indispensável o fortalecimento do senso crítico e a ampliação da visão de mundo. Proporcionar o espaço para este fortalecimento é um desafio para toda a sociedade, pois tal ação envolve participação política, apoio social, manifestação das necessidades reais, mesmo que se entre em confronto com as convenções mais arraigadas – pois elas é que costumam ser as raízes do preconceito e da desigualdade econômica e social.  
Neste contexto de amplas indagações, analisar e alimentar de maneira responsável as instâncias da leitura na formação do professor faz parte de um reconhecimento deste, como agente e como um ponto de inflexão as ideias acima (valorização da leitura, o leitor em geral, desafios da escola e a reversão do descaso com a educação).
Em sua formação (contínua) o professor é – ou pelo menos deveria ser – um leitor pleno, apto a transmitir sua experiência e produzir conhecimento. No entanto, lamentavelmente, não é o que se percebe em grande parte dos “profissionais” em atividade. Muitos deles, aliás, mal alcançam a consciência de sua mera reprodução de discursos. E sem o apoio da população, dificilmente, encontrarão condições para alavancar uma nova qualidade – tanto de formação, quanto de ensino –a ser revertida ao ambiente social que os cercam.   
O quadro atual mostra uma realidade triste, mas como já vimos em tantas outras impressionantes transições históricas, trata-se de uma situação difícil, complexa (talvez mais “custosa” a uns que a outros...), mas não impossível de ser mudada.




[1] MARTINS, Maira Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 1984.
[2] ORLANDI, Eni. Discurso e leitura. São Paulo: Cortez;Unicamp, 1996.
[3] Retratos da leitura no Brasil, São Paulo: Instituto Pró-livro e Imprensa Oficial, 2010.
[4] CUNHA, Maria Antonieta Antunes. “Acesso à leitura na Brasil”, inRetratos da leitura no Brasil, São Paulo: Instituto Pró-livro e Imprensa Oficial, 2010, p.56.
[5] KRUPPA, Sonia Maria. Sociologia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994, p.56.
[6] Grifo de Kruppa.
[7] DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. Trad. Fátima Oliva Do Couto. Introd. Weligton Paz. São Paulo: Hedra, 2010.